A Baiana em 1823 – Parte I

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Índia “civilizada” e catequizada

Mulheres em casa, homens na rua. Mulheres, família; homens, negócios. Mulheres castas; homens promíscuos. Na Bahia da Independência, esse tipo de relação homem/mulher só vale para as brancas ricas, já que a idéia de ficar trancada dentro de casa não era bem vista por uma descendente de índios.

Até 1808 não existiam muitas mulheres brancas no Brasil. Isso muda com a chegada da família real, quando se inicia o fluxo de portuguesas para cá. Essas viviam como as européias: trancadas em casa, cuidando dos filhos e do lar. Estudavam em casa ou em instituições religiosas e, embora soubessem ler, quase sempre eram proibidas de escrever. Costumavam se casar entre os 15 e 20 anos de idade e caso cometessem adultério, eram largadas pelo marido, arcavam com o estigma de “desonradas” e perdiam o direito à herança e o de ver os filhos. Seria justo se a mesma regra fosse sempre aplicada aos homens também.

Essas mulheres brancas eram responsáveis pela cozinha, administração da casa e educação dos filhos. Traziam de Portugal a tradição doceira e, com adaptações, fizeram dos doces um dos pilares da culinária baiana.

Índia Brasileira retratada por Debret, acostumada a andar descoberta

A maioria das famílias “brancas” continuava tendo como iaiá[1] moças descendentes de índios. A elite portuguesa esperava delas o mesmo comportamento das européias, mas a vida trancada em casa não caía bem a uma índia acostumada com a liberdade e o contato direto com a natureza, o que é perfeitamente compreensível. Elas conseguiam sair às ruas em visitas às igrejas (Salvador já tinha muitas) e casas de outras mulheres casadas e religiosas. O gosto dessas mulheres pela arte religiosa foi fundamental para o barroco baiano. O sangue índio ajudava na criação dos filhos: para um tupi, a vida da família gira em torno das crianças, dos curumins[2].


[1] Iaiá: Tratamento muito usado na época da escravidão, e hoje quase extinto, dado às moças, meninas e senhoras.

[2] Curumim é uma palavra de origem tupi, e designa, de modo geral, as crianças indígenas.

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