A Baiana em 1823 – Parte II

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Uma Senhora Brasileira em seu Lar. DEBRET. 1823.

De 1823 até hoje, felizmente muitos preconceitos foram ou estão sendo derrubados. O presidente do país de maior importância econômica do mundo é negro; a presidenta do país mais rico da América Latina é uma mulher. No entanto, não podemos menosprezar o passado: imagine por um momento a mulher negra em 1823.

Mais de metade de Salvador era negra. As escravas frequentavam o espaço público para fazer compras e outras tarefas para os patrões. As “negras de ganho” tinham como meta uma quantia em dinheiro a dar para os patrões e somente o que ganhavam a mais ficava com elas. A Igreja raramente casava negras, mas as próprias mulheres não se importavam muito com isso: casamento era coisa de branco, ligado à herança e partilha de bens.

Acarajé: massa frita em azeite de dendê com camarão, vatapá, cururu e pimenta

As vendedoras de comida eram a elite negra de Salvador na época – ganhavam dinheiro, compravam a alforria de outros negros e comerciavam. Criaram o delicioso acarajé e o candomblé. As negras moravam nas senzalas e, embora fosse proibido aos negros formar famílias, os brancos interferiam pouco. O trabalho era pesado e as chances de alforria, pequenas. Algumas eram destacadas para o trabalho doméstico na casa do patrão, onde a jornada era mais leve, mas havia o assédio do patrão e dos filhos. O concubinato existia e às vezes levava uma descendente de escravos a se tornar esposa não-oficial de um fazendeiro. Os filhos desses casamentos muitas vezes eram livres e podiam até herdar a fazenda onde moravam.

No Recôncavo baiano, a situação era um pouco diferente. A maioria das mulheres morava em fazendas, e as esposas e filhas dos portugueses tinham mais liberdade. Foi assim que Maria Quitéria cresceu solta e aprendeu a atirar. Ela recebeu tratamento de primogênito mesmo sendo mulher e conseguiu se alistar no Batalhão dos Periquitos graças à boa mira.

Um gosto unia praticamente todas as mulheres de Salvador: as festas. Os feriados cristãos (Natal, Páscoa, São João) eram celebrados com pompa. Os festejos africanos, embora proibidos, eram tolerados.

Pintura de Jean-Baptiste Debret

Se você gosta do acarajé da Dinha no Largo de Santana no Rio Vermelho em Salvador, compartilhe essa rica passagem da nossa história. Trata-se de uma realidade quase inteiramente restrita às imaginações de cada um de nós, seja via livros de História ou esse blog que você está lendo, mas um dia essa foi a realidade, o dia-a-dia, o mundo que pertencia não a nomes em livros, mas a pessoas de carne e osso como eu e você. Não fechemos os olhos para o passado – eles no ensina muito sobre o que fazer e, tão importante quanto, o que não fazer.

 

 

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5 respostas a A Baiana em 1823 – Parte II

  1. Celia Oliveira de J. Sacramento disse:

    Parabens pela pesquisa, precisamos muito desse tipo de ações afirmativas.

  2. Ana Oliveira Caetano disse:

    Ainda hoje há muita coisa do nosso passado e de pessoas que nos rodeiam, que ficam no escuro…
    A intenção de levar história às redes de relacionamentos , bem como o face book , é aceita e compartilhado! Curti a ideia de dizimar curiosidades e dúvidas através da ”rede”!!
    E que venha mais informação!!! ;)

  3. Paulo Correa disse:

    Sei que vou receber criticas dos muitos amigos negros que orgulhosamente tenho…mas acho que a maioria dos negros nos “tempos outrora” eram mais autênticos e se manifestavam bem mais…fica só a minha impressão!. Fui!

  4. joão de castro disse:

    Excelente pesquisa histórica.

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