O Exército Libertador

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Povo comemora o 2 de Julho de 2012 em Salvador, BA.

Muitas vezes, ao abordarmos um período ou evento histórico, focamos nas figuras que se destacaram ou que foram, por algum motivo, referenciadas na história tradicional. Costumamos deixar de lado aqueles que foram incorporados ao coletivo: o povo, a população, as massas, as tropas, a tripulação, mas cada um desses indivíduos faz parte do processo de construção da história. Fundamental para a Independência baiana, o Exército Libertador foi construído a partir do povo.

Portanto vamos falar um pouco da participação dos heróis que lutaram na Independência e que comumente não são lembrados: os soldados esfarrapados, os batalhões de índios usando armas tribais, os negros escravos e libertos, os sertanejos, a população voluntária que se organizou por conta própria em grupos para lutar, grupos estes que formaram o maior contingente das tropas da Bahia, participando por mar e terra das batalhas que levaram à libertação da província e, consequentemente, do Brasil.

Podemos começar pela população soteropolitana que, em março de 1822, apedrejou as autoridades Portuguesas que participavam de uma procissão. No 25 de junho em Cachoeira, foi a vez do Recôncavo pegar em armas para tomar a barca portuguesa que bombardeava a cidade. Com a formação da Junta Governativa em Cachoeira, surgiram vários batalhões de voluntários no Recôncavo como os Voluntários da Vila de São Francisco, a Companhia dos Caçadores de Santo Amaro e os Voluntários do Príncipe D. Pedro, conhecidos como Periquitos por causa da cor de sua farda. Esses batalhões se destacaram em batalhas como de barra do Paraguaçu e Itaparica.

O primeiro passo para a independência da Bahia de Antônio Parreiras mostra comemoração frente à Câmara de Cachoeira após vitória do 25 de junho

Dos domínios da Casa da Torre, vieram os batalhões comandados por Santinho, que eram compostos por milicianos, militares, negros e índios. Foram estes grupos que se integraram ao Exército Libertador e lutaram bravamente durante a Batalha de Pirajá em 08 de novembro de 1822. Como Labatut informou em um ofício ao Ministro José Bonifácio “nenhum filho de proprietário rico tinha se apresentado como voluntário”.[1]

As tropas brasileiras lutaram também contra a falta de equipamento adequado, vestimenta e a fome. Nas palavras de Lima e Silva, Comandante do Exército após a destituição de Labatut: “Os soldados clamam com frio e fome. Como hei levar ao fogo corpos carcomidos de fome?”.[2]

Mas são esses heróis esfarrapados que mantiveram o cerco a Salvador e tomaram, batalha após outra, as localidades no entorno da cidade, como Itapuã, Brotas, Pituba, Rio Vermelho. Em abril de 1823, haviam aproximadamente 10.148 soldados entre Pirajá, Ilha de Maré e Boca do Rio.[3]

Desta forma, numericamente inferior (o Exército Português tinha aproximadamente 4.520 homens em Salvador) e, cada vez mais pressionado, Madeira de Melo se viu obrigado a ceder. Quando Lima e Silva adentrou a cidade de Salvador, trouxe em sua companhia homens e mulheres de vários extratos sociais, etnias e naturalidades que lutaram pela emancipação da nossa terra. Anônimos, mas não esquecidos. No 2 de Julho do ano seguinte, a população escolheu um caboclo para compor o préstito comemorativo, e o caboclo representa, entre muitas de suas simbologias, o “Dono da Terra”, lembrando que a tomada de Salvador e as vitórias nas batalhas pela nossa Independência foram alcançadas por brasileiros.

Entrada do Exército Libertador de Presciliano Silva mostra as tropas brasileiras lideradas por Lima e Silva adentrando Salvador no 2 de julho de 1823

Bibliografia

ARAÚJO, Ubiratan Castro de. A política dos homens de cor no tempo da Independência. 2004. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ea/v18n50/a22v1850.pdf. Acesso em: 18 nov. 2012.

BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. O feudo: a casa da torre de Garcia d’Ávila – da conquista dos sertões à independência do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

MATTOSO, Katia M. de Queirós. Bahia Século XIX: uma Província no Império. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

PINHO, Ana Luiza Araújo Caribé de Araújo. Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque d’Ávila Pereira. 2010. Disponivel em: http://www.bv2dejulho.ba.gov.br/portal/index.php/personagens/santinho.html. Acesso em: 10/01/2013.

REIS, João José; SILVA, Eduardo. Negociação e Conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

TAVARES, Luis Henrique Dias. História da Bahia. 10. ed. Salvador; São Paulo: UNESP; Edufba, 2001.

______. Independência do Brasil na Bahia. Salvador: EDUFBA, 2005.


[1] TAVARES, Luis Henrique Dias. História da Bahia. 2001, p. 240.

[2] Idem.Ibidem, p. 247.

[3] Idem.Ibidem, p. 247.

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2 respostas a O Exército Libertador

  1. Saudoso Professor Ubiratan, você também faz parte desta magnífica História baiana, por sua bravura, sua distinção, sua Pedagogia engajada com a realidade dos Baianos, conhecemos melhor a Bahia com todos os seus encantos, cantos e procissões de guerreiros graças a Heróis como você que lutaram até o Início de uma nova era: CIDADANIA. Salvem a todos os Historiadores, Pesquisadores, Professores , Educandos e Educadores da nossa Bela Bahia, Anônimos e conhecidos, porém nunca “desconhecidos” do Soberano Deus Libertador Igualitário e Fraterno . ^ .

  2. Pingback: O Levante dos Periquitos: Prelúdio |

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