O Levante dos Periquitos: O cerco na madrugada

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Relembre como o Levante dos Periquitos começou aqui.

Retrato de

Retrato de José Antônio da Silva Castro

O levante do Terceiro Batalhão de Caçadores do Exército não se originou apenas por conta da retirada de José Antônio da Silva Castro do comando dos Periquitos, mas também pelas tensões geradas por contradições entre o discurso pré-Independência e as medidas tomadas pós-Independência.

A retirada de seu comandante, considerado um herói da guerra pela independência do Brasil na Bahia, foi encarada pelos soldados como o início de uma tentativa de desmobilização do batalhão. José Antônio da Silva Castro estava entre os indivíduos que se mostraram descontentes com a dissolução da Assembléia Constituinte de 1823 pelo imperador, sob a promessa de elaborar uma Constituição “duas vezes mais liberal”, e a posterior imposição da Carta de 1824, de caráter predominantemente despótico. Associe isso ao regime de lei marcial imposta aos estados do norte-nordeste após a eclosão da Confederação do Equador e aos rumores do surgimento de “clubes republicanos” em reuniões promovidas na capital e no recôncavo baiano: este foi o pano de fundo do Levante.

Na madrugada de 25 de outubro de 1824, soldados da segunda e quarta companhia dos Periquitos cercaram a residência do então Comandante de Armas da Bahia, exigindo o retorno de José Antonio da Silva Castro ao comando do seu batalhão. Acordado pelo toque de uma corneta e um tiro de aviso, Felisberto Gomes Caldeira respondeu aos soldados que “se quisessem seu comandante de volta, que fossem buscá-lo”. Após alguns desentendimentos e troca de tiros, o Comandante, que havia sido ferido de raspão na cabeça, concordou em receber o grupo na residência. Os levantados tinham a intenção de prender o Comandante, que resistiu à ordem e entrou em luta corporal com o Alferes José Pio do Amaral Gurgel. Durante a confusão, Gomes Caldeira foi baleado e morto[1].

É importante destacar que o Comandante Felisberto Gomes Caldeira é o mesmo cuja prisão durante a guerra de Independência do Brasil na Bahia levou ao levante do exército, à deposição de Labatut e posterior nomeação de Lima e Silva ao comando geral do Exército Libertador, mas, ao que parece, após sua nomeação a Comandante de Armas da Bahia, seu relacionamento com os grupos mais liberais dentro das Forças Armadas se deteriorou rapidamente a ponto de ser taxado, entre outras coisas, de “soberbo e arrogante”, “astuto em manejar a intriga” e que “infamava na ordem do dia qualquer oficial”[2]. Independente de sua posição política, a morte de Gomes Caldeira pôs em xeque os planos dos Levantados, dividindo as opiniões da tropa.

Lima e Silva à frente das tropas brasileiras em entrada triunfal no 2 de julho de 1823

Lima e Silva à frente das tropas brasileiras vitoriosas em entrada triunfal em Salvador no 2 de julho de 1823. Quadro de Presciliano Silva.

Após o incidente na residência do Governador de Armas, os militares levantados do terceiro batalhão se dirigiram à residência de Silva Castro e o convocaram a voltar à liderança de seu pelotão. Este recebeu com choque a notícia da morte de Gomes Caldeira, que foi reportada por Silva Castro ao Presidente da Província através de uma carta na qual solicitava orientação.

A sorte estava lançada, as conseqüências e desdobramentos do levante prosseguiriam na luz do dia que nascia.

Bibliografia

KRAAY, Hendrik. “Em outra coisa não falavam os pardos, cabras, e crioulos”: o “recrutamento” de escravos na guerra da Independência na Bahia. Revista Brasileira de História [online], vol.22, n.43, São Paulo, 2002, 106-126. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882002000100007>. Acesso em: 30 jan. 2013.

MATTOSO, Katia M. de Queirós. Bahia Século XIX: uma Província no Império. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

REIS, João José; SILVA, Eduardo. Negociação e Conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

TAVARES, Luis Henrique Dias. Da sedição de 1798 à revolta de 1824 na Bahia: estudos sobre a Sedição de 12 de agosto de 1798, o soldado Luís Gonzaga das Virgens, os escravos no 1798, Francisco Agostinho Gomes, Cipriano Barata e Levante dos Periquitos. São Paulo: UNESP. 2003.

TAVARES, Luis Henrique Dias. História da Bahia. 10. ed. Salvador; São Paulo: UNESP; Edufba, 2001.

TAVARES, Luis Henrique Dias. Independência do Brasil na Bahia. Salvador: EDUFBA, 2005.


[1] TAVARES, Luis Henrique Dias. Da sedição de 1798 à revolta de 1824 na Bahia. 2003, p. 210.

[2] TAVARES, Luis Henrique Dias. Da sedição de 1798 à revolta de 1824 na Bahia. 2003, p. 222.

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