Lord Cochrane: o Lobo do Mar

Facebook Twitter
Lord Cochrane

O inglês Lord Cochrane

Quando foi contratado para comandar a Armada Imperial brasileira, Lord Cochrane era provavelmente o melhor guerreiro de mar do Ocidente. No Brasil, oficialmente é um herói nacional, mas se alguém elogiar Lord Cochrane em São Luís do Maranhão, corre o risco de ser insultado.

Por que contratar um inglês para comandar a nossa Marinha? Bom, porque a nossa Marinha não existia ainda. Assim como o Exército, o Brasil começava a conceber a sua própria Marinha. Com toda a experiência de já ter lutado contra Napoleão, o controverso Cochrane foi a pessoa escolhida para comandar os barcos de guerra brasileiros (muitas vezes improvisados) nas guerras da independência.

Em 14 de dezembro de 1775, nasce Thomas Alexander Cochrane, em Anssfield, Escócia, filho de uma família nobre, mas não rica. Seu contato com o mar começa cedo: o primeiro registro que há de Cochrane como tripulante de um navio da Marinha Britânica data de 1780, ou seja, apenas cinco anos após o seu nascimento.

Embora esse primeiro contato tenha sido um artifício de seu tio, capitão da Marinha, de começar a contar o tempo de serviço do sobrinho visando futuras promoções, é possível afirmar que a paixão pelo mar de Cochrane tomou conta dele rapidamente. Aos 17 anos, entra efetivamente para a Marinha – ainda jovem, a sua motivação era a riqueza que poderia obter com a profissão, mas logo se revela um excelente marujo e guerreiro.

Aos 24 anos de idade, Cochrane é promovido a capitão-de-corveta e assume o comando do brigue HMS Speedy. Nesse mesmo ano, ele é quase capturado por uma fragata espanhola disfarçada de navio mercante, mas demonstra a sua astúcia ao escapar içando uma bandeira dinamarquesa, e evitar a invasão dos espanhóis alegando que o seu navio estava tomado pela peste negra – Cochrane era mestre em “dar um jeito”, quase que um jeitinho brasileiro, para solucionar vários problemas. Sabendo que ele ainda seria perseguido à noite, ele apagou todas as luzes do seu navio e deixou flutuar um barril com uma lanterna dentro – a fragata inimiga perseguiu o barril, e Cochrane escapou ileso.

HMS Speedy captura o El Gamo

HMS Speedy de cochrane captura a fragata espanhola, El Gamo

Com o HMS Speedy, Cochrane, em 13 meses, capturou, queimou ou expulsou 53 navios inimigos até ser capturado ainda em 1801 por franceses. Há registros na autobiografia de Cochrane de que o capitão que o capturou era gentil e até pedia conselhos marítimos para o inglês, que foi liberto em uma troca por um oficial francês. Em 1806, Cochrane é apelidado por Napoleão Bonaparte, o maior inimigo da Inglaterra, de Lobo do Mar devido à sua genialidade e eficiência em alto-mar. Além da habilidade guerreira, o “lobo” alude ao caráter rude do almirante. Quem conheceu dizia que Cochrane se sentia em casa nas batalhas, mas em terra ou em momentos de calmaria, olhava para o chão, não encarava os interlocutores e respondia por monossílabos.

Rumores sobre Napoleão se espalham na Bolsa.

Nesse mesmo ano, ele ingressa no Parlamento Britânico, eleito após comprar votos a 10 guinéus cada, e inicia a sua carreira política. O seu jeito ousado de criticar a conduta inglesa em guerra e a corrupção na Marinha resultou em inimigos poderosos no governo.

Em 1814, a vida controversa de Cochrane atinge um novo limite com o episódio da fraude na Bolsa Britânica. Ele é acusado de ajudar a espalhar um boato de que Napoleão havia morrido – com a possibilidade de paz, os preços das ações subiu consideravelmente. Cochrane vende as suas ações, adquiridas dias antes, por um valor de £139,000, o equivalente a £5,826,880 hoje. Embora o homem que divulgou o boato tenha sido visto em sua casa na véspera, Cochrane jura inocência. Mesmo assim, acaba expulso do Parlamento e da Marinha.

Em busca de novas aventuras, Cochrane vai parar no Chile quatro anos depois, onde ajuda o país em sua guerra de independência contra a Espanha. Ele conduz o Exército do general San Martín até o Peru a bordo da fragata O’Higgins, onde auxilia, ao combater os espanhóis, na independência peruana por tabela.

Do Chile, Cochrane vem para o Brasil ajudar na nossa independência. Em abril de 1823, Lord Cochrane deixa o porto do Rio de Janeiro no comando de 6 navios, bloqueia o porto de Salvador e entra na baía apenas uma vez, à noite. Com os navios às escuras, se aproxima de barcos portugueses ancorados no Unhão e começa a abalroar os navios. Surpreendidos e sem ver de onde vem o ataque, os portugueses tentam fugir. Resultado: mais batidas e danos aos barcos. Cochrane se retira no escuro.

Ruas Lord Cochrane

Ruas, praças e avenidas "Lord Cochrane" espalhadas pelo Brasil

Em 3 meses, a Bahia é integrada ao Império do Brasil. Com os 4 navios que lhe sobraram, dirige-se ao Maranhão e ao Pará. Cochrane blefa e manda avisar ao governos locais  portugueses que uma poderosa esquadra se aproxima e pede que se rendam. Os portugueses aceitam para só depois perceberem que não havia esquadra nenhuma. Tarde demais. A Independência do Brasil já é um fato. Com sua audácia e boas estratégia, Lord Cochrane desempenhou um papel importante na Independência do Brasil. Mas não foi pago.

Fazendo jus à fama, saqueia o Tesouro de São Luís, leva o dinheiro “para pagar os marujos”, e bombardeia a cidade. Como seu próprio pagamento não está quitado, ao partir para a Inglaterra, leva com ele uma fragata da Armada Imperial. Por isso, a sua fama em São Luís não é das melhores, mas o que você diria: Cochrane agiu de maneira errada ou as suas ações foram justificadas?

De volta à Inglaterra, torna-se o 10º Conde de Dundonald após a morte do pai e é aceito novamente à Marinha como almirante. Em 1860, morre durante cirurgia de pedra nos rins, e seu túmulo fica na Abadia de Westminster, onde são coroados os reis da Inglaterra.

Esta entrada foi publicada em Heróis e marcada com a tag , , , , , , , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

14 respostas a Lord Cochrane: o Lobo do Mar

  1. Ronaldo disse:

    Se não tivesse sido por ele, o Brasil levaria muito tempo, além do que levou, para se separar de Portugal. Suas motivações para ter se envolido em nossa causa separatista não nos diz respeito, mas, apenas, que ele foi o viabilizador da nossa independência e, só por isso, merece uma reverência e um reconhecimento histórico que até hoje não obteve.

  2. Breno Saraiva disse:

    Ao misturar verdadeiros heróis como Maria Quitéria, José Antonio da Silvia Castro, avô de Castro Alves, que formou expontaneamente o Batalhão dos Voluntários do Príncipe que veio integrar Maria Quitéria, Tristão Gonçalves/Araripe, que liderou as tropas brasileiras, novamente em um movimento expontaneo saídas do seio da população em uma marcha do sul do Ceará transpassando os contrafortes da Ibiapaba para bater contra as tropas do português major Fidié na Batalha de Jenipapo no Piauí, com mercenários como Cochrane, é que se avilta o vulto desses heróis.

    Além dos episódios desairosos desse ladrão em São Luis, Cochrane assassinou mais de 300 patriotas brasileiros em Belém no porão do navio “brique palhaço” sufocando-os com cal. Não basta-se prendeu o cônego Batista Campos, líder da reação nacionalista contra os portugueses, a um canhão para matá-lo em público, oque teria levado a efeito não fosse a intervenção de políticos locais.

    Cochrane longe de ser um “herói”, é um ladrão, assassino, mercenário sem nenhum escrúpulos.

  3. andresobral disse:

    Prezado Breno,
    Obrigado pelo comentário e entendemos como uma sugestão ou convite para que venhamos a ilustrar melhor a Batalha de Jenipapo. Será um prazer em levar aos piauienses e demais brasileiros, sobretudo aos jovens, um pouco mais de nossa História, de forma interessante. Este é o nosso espírito.
    No que se refere a elevar Sir Lord Cochrane ao panteão dos heróis deste episódio é assunto um tanto quanto controverso. Existem aqueles que o julgam herói pela sua marcante colaboração na batalha naval travada no sul da Bahia, e nas demais ações navais pela construção e manutenção do cerco a Salvador. Importante também que se diga que o referido almirante foi o maior responsável pela formação da Marinha Imperial Brasileira. Mas também existem outros interessados na História que, como você, o consideram um mercenário,e pouco engajado com os princípio de patriotismo que permeiam este enredo. Para dizer o mínimo.
    Nossa postura será a de aproveitar a complexidade do personagem a nosso favor. Usaremos seu lado mais malandro, mercenário, e por que não irônico,em alguns momentos, sem deixar de mencionar suas habilidades de marinheiro, aprendidas com Sir Almirante Nelson em outros.
    Abs e continue nos prestigiando. Obrigado

    Equipe Os Heróis do Brasil

  4. Ronaldo disse:

    Breno Saraiva, não foi o Cochrane quem “assassinou mais de 300 patriotas brasileiros no porão do navio brigue Palhaço, sufocando-os com cal”, para usar de suas próprias palavras, meu filho, mas, um de seus comandados, cujo nome agora não me recordo. Não sei de onde você é, porém, pela teu afã em detratá-lo, justificando para tal, as infelicidades cometidas naquela região do país, suponho que seja nordestino, então, saiba ou lembre-se que os Estados do nordeste brasileiro possuem um número muito maior de “ladrões, assassinos e mercenários sem nenhum escrúpulos” metidos em suas políticas, e olha que estou falando de nacionais, do que Cochrane somado aos seus colaboradores ingleses.

  5. Ronaldo disse:

    Cochrane foi um típico homem de seu tempo, portanto, sua postura foi coerente com o que se poderia esperar dele, todavia, vê-se nessa figura um tanto controversa traços que divergem bastante de muitas práticas havidas na época em que viveu. Filho de uma das mais antigas, tradicionais e respeitadas famílias britânicas, de origem escocesa, jamais se serviu da escravidão, ainda em voga na Inglaterra, posto que aquele país ainda não a tinha abolido e, já em idade avançada, possuidor de duas minas de carvão, proibiu que se empregasse mulheres e crianças na extração daquele minério, o que revela não ter sido tão desumano, como pretendem os seus detratores.

  6. Pingback: Maria Graham: testemunha da Independência do Brasil |

  7. Breno Saraiva disse:

    Verdade, quem assassinou foi Joe Pascoe Grenfell a comando de Coachrane…. agora, me causa certa perplexidade chamar o assassinato de 300 brasileiros de “infelicidade”….. ainda mais de uma forma tão desumana e covarde.

    Se sou ou não “nordestino” pouco importa ou vem ao caso, se não os fatos históricos e o julgamento que se sopesa sobre eles. Da minha parte ladrões, assassinos, seja de onde forem merecem o mesmo fim, cadeia!

    Ainda sobre Coachrane:

    Quando de sua ação no Peru, Cochrane robou uma embarcação de San Martín, aonde se encontrava guardado todo Tesouro Público do Peru. Em seguida ao alvedrio de San Martín, saqueou 2 cidades, tendo ainda capturado um comboio que transportava ouro e prata.

    As suas ações que se seguiram no Brasil como se vê não foram diferentes de sua prática comum, revelando ser um simples oportunista, mercenário, ladrão, indiferente aos ideais libertadores, apenas se aproveitava de situações de guerra para realizar saques.

    Reforça ainda mais isso, os antecedentes anteriores aos sombrios episódios ocorridos no Peru e no Brasil, em 1814 em Londres, quando Coachrane foi um dos artifices do escandalo da Bolsa de Londres, espalhando falsos boatos para angariar os preços das ações na bolsa, tendo sido preso preso, multado e condenado a 1 ano de prisão. Suas ações futuras na América do Sul certamente teve o condão de se restituir financeiramente.

    Dessas ações se depreende claramente o mau-caratismo de Coachrane, mentiroso, oportunista, dissimulado.

    Quando ao resultado militar de sua ações no Brasil, em Salvador, João Caboto(comandante da Flotilha Itapacarana foi muito, mais muito mais fundamental e importante do que Coachrane, porque a Flotilha Itapacarana bloqueou o fornecimento de suprimentos para os portugueses. O bloqueio de Coachrane apenas bloqueou alguns navios de guerra portugueses que ainda que não fossem bloqueados não seriam de nenhum efeito nos combates terrestres que definiram a guerra bem como logístico.

    Em São Luís novamente, todo o interior do Maranhão já estava tomado pelos patriotas brasileiros a frente de Tristão Araripe por um exército de 10.000 homens. Cochrane, mais uma vez oportunista, apenas acelerou um fato já consumado e inevitável, como se disse-se: “rendam-se a mim, com garantias de proteção ou sejam dizimados pelos brasileiros que já lhe batem a porta da cidade”. O mesmo ardil foi feito em São Luís.

    Então para finalizar, um Herói em que se altruisticamente se sacrifica em prol de um ideal, não é o caso de Coachrane. Ainda que não pesassem sobre Coachrane todas essas ações de pura pirataria, o fato dele ser um mercenário por si só o descaracteriza como “herói”, ainda mais pesando sobre ele todas essas ações de corariam de vergonha qualquer pessoa honesta.

  8. Patrick disse:

    Na minha opinião, em se tratando do ocorrido no Brasil, o nobre Lord apenas recebeu o que deviam da forma como se fazia em tempos antigos. O problema do Maranhão é que os saqueadores se multiplicaram depois do Lord e perpetuam até hoje. Pergunto aos entendidos no assunto: Quem é Sarney para dizer que o guerreiro Lord é um saqueador?

  9. Ronaldo disse:

    Breno Saraiva, se houvesse pena para detrator de quem já se foi, você apodreceria na cadeia.
    Cadeia deveria ser o destino de gente que enlameia a reputação de quem “já se foi”, apoiado em informações históricas sem qualquer profundidade de estudo, como você demonstra com tanta clareza, pela exposição superficial que fez sobre a vida do Lorde Cochrane.
    Não conhece nada vezes nada da vida dele e posa de grande conhecedor.
    Você me dá pena e asco, meu filho.

  10. Oscar Fernando Wother disse:

    O que observei que tem gente que não gostou que saímos do jugo de Portugal. As injustiças haviam no século 19 e morriam pessoas a todo momento por causa das guerras, principalmente devido a Napoleão. Acredito que os que façam de mal do COCHRANE, deveriam viver até hoje sobre o domínio de Portugal.
    Maravilhoso foi o Cochrane, o Lobo do Mar ou melhor, o herói do Brasil, pela sua grande luta para nos libertar de Portugal, sendo assim o que vale é a posição que nossa nação ficou na terra, INDEPENDENTE para nos dias de hoje sermos brasileiros e livres.

  11. Ronaldo disse:

    Verdade, Oscar Fernando Wother, sem o Lord Cochrane, o Brasil, assim como, boa parte da América espanhola, estaria amarrada à suas metrópole por muito mais tempo ainda.

  12. Ronaldo disse:

    Breno Saraiva, tuas considerações que tentam minimizar a importância de Lord Cochrane no processo de independência deste país, são, simplesmente, ridículas.
    Você manipula a verdade dos fatos com muita fraqueza, meu filho…

  13. Ronaldo disse:

    Antes da Independência, o Maranhão e o Pará constituíam região autônoma do Brasil, em que governo e negócios de Estado estavam subordinados diretamente a Lisboa, e não ao Rio de Janeiro; isso porque era muito mais rápido o deslocamento e a comunicação com Portugal do que com a capital da colônia, além de se constituir numa reserva de força daquele país sobre nós, em casos de levante separatista.

    Cochrane conseguiu a adesão do Maranhão e do Pará à Independência, garantindo pata nós, portanto, todo o Norte e a amazônia.

    Nota-se, sem muito esforço, que o que ele nos ofereceu supera de longe qualquer desvio cometido em terras estrangeiras, se é que os cometeu.

  14. Laurindo Rolim Ayres disse:

    Lord Cockrane
    Um Guerreiro celebro Abençoado
    Mais brasileiro que muitos nascido aqui
    Sou nascido na Rua Lord Cockrane
    Ipiranga + um guerreiro também

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>