As Caretas do Mingau de Saubara

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O festejo das Caretas do Mingau em 2009. Imagem de Hugo Guarilha.

Um exemplo das repercussões da Guerra pela Independência do Brasil na Bahia no imaginário popular são as chamadas Caretas do Mingau, que ocorrem no município de Saubara. Neste festejo as mulheres saem às ruas na madrugada de primeiro para dois de julho com os rostos cobertos de branco, distribuindo mingau, bebendo licor e festejando com a população local.

A tradição oral da população local remete o festejo às lutas pela Independência no século XIX. Saubara era um distrito de Santo Amaro da Purificação; seu nome vem do tupi e significa “comedor de formigas”. Localizada em um ponto estratégico – na foz do Paraguaçu, interior da baía de Todos os Santos -, esta vila de pescadores era um ponto de entrada para o Recôncavo e foi alvo das disputas entre portugueses e brasileiros.

Consta que, durante a guerra, os homens deixaram o vilarejo, que foi ocupado por portugueses, e se entrincheiraram na ponta de Saubara. As mulheres que permaneceram no arraial criaram então uma estratégia para burlar a vigilância portuguesa: saíam à noite para levar mantimentos, medicamentos e víveres aos brasileiros no front, vestidas de branco e utilizando máscaras para assustarem os portugueses, como se fossem assombrações. Assim, não eram reconhecidas e tinham maiores chances de chegar em segurança ao seu destino e retornar incógnitas às suas moradias.

O próprio Labatut refere-se à presença das mulheres na defesa de Saubara: “A luta se alonga por mais de seis horas; um assalto com desperdício de cartuchame. Os portugueses desistem do seu intento, para ameaçar Saubara, cujos defensores, sem distinção de sexo, dirigidos pelo Padre Manuel José Gonçalves Pereira, os rechaçam”[1].

Os participantes das Caretas do Mingau encerram sua celebração com a Saudação da Cabocla, que representa sozinha os festejos do Dois de Julho em Saubara. Sem registros escritos, a história das Caretas do Mingau de Saubara foi mantida através da oralidade e pode ser encarada como uma celebração que confere sentido e identidade às lutas da população local pela Independência do Brasil na Bahia, valorizando a participação popular e feminina nas contendas.

 

Bibliografia

AMADO, Janaína. O Grande mentiroso: tradição, veracidade e informação em história oral. História. São Paulo, n. 14, p. 125-136, 1995.

GUARILHA, Hugo. Caretas do Mingau. 2010. Disponível em: http://reconcavo.wordpress.com/. Acesso em: 11 jan. 2013.

 

REIS, João José; SILVA, Eduardo. Negociação e Conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

SOUZA, Affonso Ruy. Dossier do Marechal Pedro Labatut. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exercito, 1960, 253p.

TAVARES, Luis Henrique Dias. História da Bahia. 10. ed. Salvador; São Paulo: UNESP; Edufba, 2001.

______. Independência do Brasil na Bahia. Salvador: EDUFBA, 2005.

 



[1] SOUZA, Affonso Ruy de. Dossier do Marechal Pedro Labatut. 1961, p.80.

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8 respostas a As Caretas do Mingau de Saubara

  1. Brasangola Lulilma da Silva disse:

    É um linda história que demonstra o espírito guerreiro do nosso povo!

  2. prof J Bamberg disse:

    Salve os verdadeiros,Heróis e Heroínas,do 2 de Julho de 1823,dia da verdadeira Independência do Brasil,promovida pelo nosso Povo!… Parabéns ao Hugo Guarilha e aos depoentes,em especial do Povo da Saubára heróica e brava !…Como diz a belíssima,’Ode ao 2 de Julho’:”…com tiranos não combinam,brasileiros,brasileiros corações !!!…”…
    Excelente iniciativa,para a Honra e Glória do nosso Povo!…
    Cumprimentos efusivos,
    prof JB

  3. MAURICIA MOREIA disse:

    Ao meu querido amigo,
    Hugo Guarilha: meus agradecimentos por dar a devida importancia as mulheres guerreiras de Saubara. O reconhecimento de que o municipio de Saubara é um dos unicos que mantem e cultiva a memoria viva da luta do nosso povo heroico. Dona Maria da Cruz que aos seus 90 anos ainda preserva a nossa tradição. Saudações e abraços:>
    Saubara/ Mauricia Moreira Vital da Silva

  4. Raimundo José dos Santos - Betinho de Saubara disse:

    Como se comunicar com prof. J. Bamberg e Hugo Guarilha?

  5. CESAR JAMBEIRO disse:

    o que os historiadores não contam é as mulheres tambem amavam seus homens nas trincheiras. Além do alimento material elas davam também o alimento espiritual. vi um comentário de Betinho da Saubara esse é o grande historiador e conhecedor da historia do nosso municipios e eu primo da amizade e deleito nos seus conhecimentos

  6. Bel Saubara disse:

    Só uma ressalva: As mulheres não foram tão passivas assim como se pensa,elas manejam armas na verdade,depois os lusitanos segundo os historiadores não desembarcam em Saubara,ou seja,tentam,e por venturas aqueles que desceram,foram aniquilados,morreram. Não existe essa coisa que os lusitanos venceram as tropas saubarenses e os homens fugiram para os matos. Na verdade sempre que tentavam descer em Saubara eram mortos,não esqueçam disso. Saubara sempre atacada mais nunca dominada. As mulheres defendem o território saubarense,como uma Águia defende seu ninho. Elas rompem com o machismo,pois historicamente falando,guerras,exercito são coisas para homens,logo,as mulheres ficavam nas cozinhas e cuidando dos feridos. A exemplo do soldado medeiros (Maria Quitéria) corta os cabelos para não ser identificada como mulher e sim como homem.Enfim as mulheres ,preocupadas com a possibilidade da morte de seus filhos e maridos vão para o ataque e não na passividade, apenas alimentando o exercito.

  7. Conceição disse:

    Sou filha da terra e estou pensando em escrever o meu mestrado falando sobre uma das culturas desse lindo lugar Saubara. Fiquei interessada sobre o assunto caretas do mingau. Gostaria de ter mais informações.

  8. Rita de OUZA disse:

    Pretendo homenagear,CARETAS DO MINGAU, no carnaval dos Mascarado de MARAGOGIPE,cultura bastante interessante de Saubara Mulheres Guerreiras

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