Quem foi Joana D’Arc?

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Quando explico a alguém quem foi Maria Quitéria, uma das respostas mais comuns é “ela foi, tipo, a nossa Joana D’Arc?”. Ou então, como já aconteceu também, eu próprio uso a heroína francesa como exemplo e obtenho a indagação em retorno: quem foi Joana D’Arc mesmo?

Joana D’Arc nasceu em 1412 na cidade de Domrémy no interior da França. Garota simples, analfabeta e bastante religiosa, ela ia à igreja sempre que podia. Aos treze anos, começa a ouvir vozes de origem divina que a incubem de liderar a libertação dos franceses frente os ingleses.


Pausa para uma rápida contextualização histórica: estamos em meio à Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra, que tem como fim retomar territórios franceses ocupados pelos ingleses. No início do século XV, o rei francês Carlos VI está louco (literalmente) e não possui um filho velho o suficiente para reinar – por isso, há uma disputa pelo trono entre seu irmão, Luís de Orleans, e seu primo, João I de Borgonha. Em 1407, Luís é assassinado e acelera a repartição interna da França entre armagnacs (que apóiam Luís) e borguinhões (que apóiam João). Enquanto isso, Carlos VII, o herdeiro do trono, cresce e sua primeira ação oficial é organizar um tratado de paz entre as duas facções, que termina com o assassinato do então Duque de Borgonha durante uma reunião. Os borguinhões culpam Carlos VII pela falta de proteção durante o incidente e aliam-se aos ingleses.

Voltando à Joana D’Arc. Aos 16 anos, ela se encontra com o Delfim (herdeiro do trono) Carlos VII e lhe convence, através de previsões certeiras sobre certos acontecimentos militares, de que ouve vozes divinas que a guiam à vitória e expulsão dos ingleses. Além disso, ela planeja retomar a cidade de Reims, onde a cerimônia de coroação dos reis é realizada para que o herdeiro possa ser coroado oficialmente. No entanto, esta cidade estava tomada por anglo-borguinhões. Por estar passando por uma péssima fase na guerra e já ter extinguido suas opções lógicas e racionais, Carlos VII concede a sua última gota de esperança à Joana D’Arc e a sua suposta divindade, servindo-lhe com equipamentos de guerra e a liderança de uma tropa na missão de libertar Orleans.

Sempre vestida de homem, Joana D’Arc parte em sua jornada militar e, chegando em Orleans, se encontra com os líderes de outras tropas aliadas, que não dão ouvidos a uma líder tão jovem. Mesmo assim, ela briga para poder participar das reuniões de Conselho e os convence a adotar uma tática mais agressiva, já que a estratégia cautelosa adotada até então era um fracasso. Em dois dias, Joana D’Arc e suas tropas retomaram duas fortalezas. No terceiro dia, os outros líderes insistiram em esperar reforços, e ela foi ao ataque mesmo quase sem apoio e recuperou mais uma fortaleza. Em meio a esses ataques, ela teria sido atingida por uma flecha no pescoço, o que não a impediu de continuar. Após tanto sucesso, foi promovida e ganhou permissão do Rei para seguir em frente com o seu plano de subir às margens do Rio Loire até a cidade de Reims. O seu exército tomou mais três regiões dominadas pelos borguinhões no mês seguinte. Comandantes que a condenavam passaram a admirá-la. Em 03 de julho, os inimigos cederam a cidade de Auxerre, próximo a Reims.

“Duque de Borgonha, eu te imploro e humildemente suplico que você não faça mais guerra contra o reino sagrado da França. Retire as suas pessoas de certos lugares e fortalezas desse reino sagrado, e, em nome do gentil rei da França, eu digo que ele está pronto para fazer as pazes com você, por sua honra” – é um trecho de uma carta enviada por Joana D’Arc ao Duque de Borgonha. A heroína francesa obteve a fama de preferir usar a sua moral à sua espada. Reims abriu as suas portas pacificamente, e Carlos VII foi coroado o rei da França. A guerra, no entanto, ainda estava longe de acabar.

Havia resistência em alguns pontos do país, incluindo a capital, Paris. Nove meses depois, na cidade de Compiègne, Joana D’Arc é capturada pelos borguinhões e vendida para os ingleses pouco depois, com a ajuda do bispo de Beauvais na negociação. O seu julgamento foi bastante controverso. O bispo era aliado dos ingleses e sequer tinha jurisdição suficiente para acusá-la de heresia, mas por motivos políticos, o julgamento foi iniciado, e Joana D’Arc, acusada de heresia e assassinato. Dez sessões ocorreram sem a presença da acusada, e quando ela foi chamada ao julgamento, não pode ao menos ter alguém em sua defesa. Seu pedido de falar com o papa, algo que, muitos acreditam, poderia ter salvado Joana D’Arc, foi negado pelo bispo de Beauvais. A esperteza da heroína é clara em uma parte do transcrito do julgamento, onde perguntam a ela se ela estava na graça de Deus, ao que ela responde: “Se não estou, que Deus me ponha lá; e se estou, que Deus me mantenha” – a pergunta era uma armadilha: se respondesse que sim, seria condenada por heresia já que a Igreja defendia que ninguém pode estar certo de tal coisa; se dissesse que não, estaria confessando a sua culpa. De qualquer jeito, ela nunca teve uma chance verdadeira de se defender, e foi condenada. Em 30 de maio de 1431, Joana D’Arc é queimada viva.

Vinte e cinco anos depois, o Papa Calisto III decide rever o caso e a inocenta, transformando-a em um mártir. Quase cinco séculos depois, em 1920, ela é canonizada pelo Papa Bento XV, ganhando a posição, além de heroína nacional, de santa padroeira da França. A sua história tinha sido bastante negligenciada a princípio e foi impulsionada ao centro do palco francês quando Voltaire publica clandestinamente a sua obra La Pucelle d’Orleans. La Pucelle – a donzela – foi um épico satírico de grande teor sexual, que acabou queimado e banido pela Europa durante os séculos XVIII e XIX. No entanto, o alvoroço causado por Voltaire despertou a vontade de artistas e acadêmicos de cultuarem Joana D’Arc. Desde então, a sua popularidade só cresceu: são inúmeros os poemas, livros – e hoje em dia, filmes e jogos – publicados em sua homenagem. A sua cidade natal hoje se chama Domrémy-la-Pucelle também em sua honra.

A sua jornada em muito se assemelha com a de Quitéria: ambas são mulheres que lutam vestidas de homem em uma época onde mulheres não eram aceitas nas forças armadas; ambas são de origem simples, de uma vida no interior, e analfabetas, sem educação formal; ambas lutam pela sua terra natal a fim de expulsar uma nação invasora. Por fim, o mais importante: ambas são exemplos verdadeiros de coragem, astúcia e esperança – lições essas que são universais e jamais devem ser esquecidas. Uma nação precisa de exemplos, de heróis.

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