Maria Graham: testemunha da Independência do Brasil

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Elevador Lacerda à esquerda; Mercado Modelo à direita

Apesar de hoje a Bahia ser um dos principais destinos turísticos do Brasil, nem sempre foi assim: a vinda de estrangeiros ao Brasil era restrita até 1808. Somente com a chegada da Família Real e a abertura dos portos às nações amigas, os viajantes de outros países puderam visitar o Brasil, e a Bahia, por ser um dos principais portos da época, tornou-se praticamente parada obrigatória dos navios estrangeiros.

Após a abertura dos portos, pintores, estudiosos, naturalistas e viajantes passaram pelas terras baianas e registraram suas impressões em seus diários, entre eles nomes famosos como Charles Darwin em sua viagem de estudos a bordo do navio Beagle, que resultou na publicação da Origem das Espécies.

Dentre os visitantes que aportaram em Salvador destaca-se Maria Graham, não só pela riqueza de informações contidas em suas notas, publicadas no Diário de uma viagem ao Brasil, mas também pela sua estreita relação com o processo de independência do Brasil, entre 1822 e 1823, e as batalhas ocorridas na Bahia.

Lady Maria Dundas Graham Callcott nasceu na Escócia em 1785, filha de um oficial da Marinha Britânica. Em 1809, casou-se com Thomas Dundas na Índia, onde viveu por dois anos. No retorno para a Inglaterra, publicou o Diário de uma Residência na Índia e, em seguida, Cartas da Índia. Em 1821 embarcou com o marido para o Chile.

"Diario de mi residencia en Chile: María Graham" virou série de TV no Chile em 2010

Antes de chegar ao Chile, Thomas Dundas é vitimado pela febre[1]. Quando a recém viúva desembarca no Chile em 1822, é tomada sob a proteção de Lord Cochrane, que comandava no período a Esquadra que lutava pela Independência do Chile.

Durante sua estadia no Chile, Lady Graham se torna amiga, confidente e conselheira de Lord Cochrane, se envolvendo inclusive na política local devido à proximidade do Almirante com Bernardo O’Higgins, Chefe de Estado chileno. Ela aconselha Cochrane a aceitar o convite para participar da Guerra de Libertação do Brasil, embarcando juntamente com ele rumo às terras tupiniquins.

Chegando ao Brasil, se estabelece no Rio de Janeiro, tornando-se preceptora da princesa Maria da Glória, e finaliza mais dois relatos de viagem: Diário de uma residência no Chile durante o ano de 1822 e Uma viagem do Chile para o Brasil em 1823.

Graham registrou nos seus diários não só suas impressões, mas também os relatos de outras pessoas sobre o Brasil, escrevendo um dos mais completos depoimentos sobre a Guerra de Independência que existem. Além de Cochrane, José Bonifácio e a Família Real brasileira, Maria Graham conheceu, em primeira mão, Maria Quitéria, Heroína da Independência.

O que esta escritora inglesa achou da Bahia já tratamos aqui, agora nos despedimos com um dos trechos mais comoventes do seu diário, que fala da partida do Lord Cochrane do Rio de Janeiro para lutar na Bahia:

"Partida do Vaso de Guerra Imperial D. Pedro I" de Jean-Baptiste Debret, 1823.

“Esperava o Almirante [Cochrane] para almoçar comigo, mas tive o grande desapontamento de ver o navio levantar ferro e partir. Soube depois que o Imperador e a Imperatriz estavam a bordo e que o acompanharam fora da baía até o farol, de modo que ele não pode desembarcar. A manhã estava triste e escura quando o Pedro Primeiro, a Maria da Glória, o União e o Liberal levantaram âncora, mas exatamente quando a pequena esquadra passava diante de Santa Cruz e a fortaleza começou a salvar, o sol rompeu de detrás de uma nuvem e um jorro de luz amarela e brilhante desceu sobre o mar por trás dos navios. Parecia então que eles flutuavam na glória; e esta foi a última visão que tive de meu amável amigo”.

 

BIBLIOGRAFIA

 

ARAGÃO, Solange. Fontes documentais para o estudo da casa brasileira do século XIX. In: Risco: revista de pesquisa em arquitetura e urbanismo, São Paulo: USP, n. 12, 2010, p 85-93.

 

BIBLIOTECA NACIONAL (BRASIL). Maria Graham no Brasil. Anais da Biblioteca nacional do Rio de Janeiro. Rio de janeiro, 1940. v. 40, 335 p. Disponível em: <http://objdigital.bn.br/acervo_digital/anais/anais_060_1938.pdf>. Acesso em: 19 out. 2012.

 

CERDAN, Marcelo Alves. Maria Graham e a Escravidão no Brasil: entre o olhar e o bico de pena e os leitores do diário de uma viajante inglesa do século XIX. In: Historia Social. Campinas: UNICAMP, n. 10, 2003, p 121-148.

FERRAZ, Brenno. A guerra da independência da Bahia. São Paulo: Monteiro Lobato e Cia, 1923.

GLEDHILL , Sabrina. Lord Cochrane e a Independência do Brasil na Bahia. Conversando com sua Historia. Salvador: Secretaria de Cultura do Estado, Fundação Pedro Calmon, 2009. Palestra transcrita e revisada, 2009.

 

GRAHAM, M. Diário de uma viagem ao Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956. 404p.

TAVARES, Luis Henrique Dias. História da Bahia. 10. ed. Salvador; São Paulo: UNESP; Edufba, 2001.



[1] Febre era o termo utilizado popularmente para definir uma série de doenças tropicais, como malaria e dengue.

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