Maria Graham: um olhar sobre a Bahia

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Maria Graham

Como entender a visão de um estrangeiro na Bahia do século XIX, num país considerado “exótico” como o Brasil? Muitas vezes um relato de viajante, diz tanto sobre o objeto descrito como sobre o observador, e isso torna os diários de viajantes peças únicas, algo que caberia na descrição do poeta português Mario de Sá-Carneiro: “Eu não sou eu nem sou o outro, Sou qualquer coisa de intermédio”.

Quando Maria Graham chega à cidade de Salvador traz consigo todas as concepções de uma mulher inglesa, ilustradora, escritora, que já havia viajado para outras terras “exóticas”, como a Índia e a visão de uma representante do Império Britânico, à época o mais poderoso do mundo e considerado por seus concidadãos o topo da civilização moderna.

Feitas as devidas apresentações, convido-os a fazerem um breve passeio por Salvador das primeiras décadas do século XIX, descrita pela pena desta visitante. A impressão de Graham ao avistar a cidade, ainda embarcada no navio que fundeara na Baía de Todos os Santos, foi a seguinte:

Salvador do séc. XIX fotografada pelo francês Victor Frond

“[...]Esta manhã, ao amanhecer, abri os olhos diante de um dos mais belos espetáculos que jamais contemplei. Uma cidade de aparência magnífica, como vista do mar, situada numa declividade ao longo de uma alta e íngreme montanha. Uma riquíssima vegetação surge em meio às casa brancas, em intervalos, até além da cidade, estendendo-se até a região alta em que está a pitoresca igreja e convento de Santo Antônio da Barra.

Os ingleses de Salvador se estabeleceram, em sua maioria, no Corredor da Vitória, na cidade alta, praticamente fora da cidade na época. Ao descrever seu caminho do porto até a região, a escritora registra deslumbrada:

“[...]A cada passo que subíamos até a parte alta, víamos um belo espetáculo, em geral uma paisagem da baía e das embarcações. Há qualquer coisa no panorama daqui que é particularmente agradável. O verde, a floresta e os declives, geralmente abrindo-se para o mar ou para a lagoa, atrás da cidade, têm uma frescura e uma amenidade que dificilmente me lembro de ter visto antes. Não vimos senão pouco da cidade alta, mas esse pouco era belo,[...]”

O Mercado Modelo atualmente.

Mas nem sempre suas impressões sobre a Cidade da Bahia foram positivas ou isentas de críticas, abolicionista e de formação liberal – a escravidão foi motivo de repetidos registros em seu diário. Como quando fala sobre os casarões dos ingleses na Vitória; “As casas são geralmente de um só andar, com um ou dois quartos em cima como sotão. Embaixo da casa há geralmente um espécie de porão no qual vivem os escravos. Realmente fiquei às vêzes a imaginar como é que entes humanos poderiam existir em tais lugares” ou descreve a cidade baixa, na área do comércio, “[...]aí estão os mercados que parecem estar bem sortidos, especialmente de peixe. Aí fica também o mercado de escravos, cena que ainda não aprendi a ver sem vergonha e indignação” (1956, p. 150). O mercado de escravos citado é o atual Mercado Modelo, que possui um subsolo no nível do mar, local onde os escravos eram presos antes de serem vendidos.

Maria Graham também contribui para desmistificar teorias que justificavam escravidão como a ideia da “inferioridade racial” do negro, a exemplo da passagem a seguir: “Saí antes do almoço em companhia de um carpinteiro negro como guia. Êste homem, de alguma instrução, aprendeu seu ofício de modo a não ser só um bom carpinteiro, mas também um razoável marceneiro. Em outros assuntos revela uma rapidez de percepção que não dá fundamento à pretendida inferioridade da inteligência negra”.

Vale dizer que quando Lady Graham passa pelo Brasil, se propõe a ser uma observadora e, ao tomar notas das suas percepções, informar aos seus patrícios como era a vida e o cotidiano do nosso país à época. Aproveito-me então de seu estilo intimista para me despedir, e faço minhas suas palavras: “Porei fim aqui minha à narração. Se ela está bem, e como convêm à História, isto também, é o que eu desejo; mas se, pelo contrário, é menos digna do assunto, deve-se-me perdoar”.

BIBLIOGRAFIA

ARAGÃO, Solange. Fontes documentais para o estudo da casa brasileira do século XIX. In: Risco: revista de pesquisa em arquitetura e urbanismo, São Paulo: USP, n. 12, 2010, p 85-93.

BIBLIOTECA NACIONAL (BRASIL). Maria Graham no Brasil. Anais da Biblioteca nacional do Rio de Janeiro. Rio de janeiro, 1940. v. 40, 335 p. Disponível em: <http://objdigital.bn.br/acervo_digital/anais/anais_060_1938.pdf>. Acesso em: 19 out. 2012.

CERDAN, Marcelo Alves. Maria Graham e a Escravidão no Brasil: entre o olhar e o bico de pena e os leitores do diário de uma viajante inglesa do século XIX. In: Historia Social. Campinas: UNICAMP, n. 10, 2003, p 121-148.

FERRAZ, Brenno. A guerra da independência da Bahia. São Paulo: Monteiro Lobato e Cia, 1923.

GLEDHILL , Sabrina. Lord Cochrane e a Independência do Brasil na Bahia. Conversando com sua Historia. Salvador: Secretaria de Cultura do Estado, Fundação Pedro Calmon, 2009. Palestra transcrita e revisada, 2009.

GRAHAM, M. Diário de uma viagem ao Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956. 404p.

TAVARES, Luis Henrique Dias. História da Bahia. 10. ed. Salvador; São Paulo: UNESP; Edufba, 2001.

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6 respostas a Maria Graham: um olhar sobre a Bahia

  1. Sobre: “O mercado de escravos citado é o atual Mercado Modelo, que possui um subsolo no nível do mar, local onde os escravos eram presos antes de serem vendidos.” Na verdade o subsolo do atual Mercado Modelo (a alfândega da cidade, àquela época) nunca foi habitável. Foi construído ‘apenas’ para ser a fundação do prédio, visto que ele foi erguido em área aterrada. Atualmente, para que se permita a visitação, são utilizadas várias bombas d’água ligadas diariamente para manter o nível da água sob controle. O acesso ao subsolo se deu quando do último projeto de restauro, depois do incêndio ocorrido nos anos 1980.

  2. Dulcineia Martins disse:

    O seu livro Diário de uma viagem ao Brasil é o que se pode dizer de uma narrativa profunda que dá prazer continuar lendo. A cada parágrafo uma descoberta, uma surpresa, uma resposta.

  3. No Corredor da Vitória e no Campo Grande precisamente onde existia a Igreja Anglicana até 1967, onde a mesma foi demolida e construída uma outra na Rua Ceará na Pituba os Ingleses se encontravam para os cultos episcopais e participar das Liturgias da mesma. Na Ladeira da Barra ao lado do Yacht Club da Bahia existe até hoje o cemitério dos Ingleses, onde soldados ingleses, bispos e cidadãos ingleses em geral ainda estão sepultados , contudo não funciona mais. O Bispo Sherril foi um dos Clérigos que organizou a Igreja, como a morada do “reverendo” e outros imóveis durante os anos 50 e 70 na Bahia.
    Na grande maioria os Ingleses se opuseram aos regimes escravocratas , combatiam a omissão dos Padres Católicos em apoiar o tráfico de negros da Àfrica, ´uso dos mesmos nos Engenhos de Cana de Açucar. Devido a estas e outras situações , um nobre Inglês e Português Abolicionistas fundaram o Yacht Club da Bahia em frente ao Engenho de Martins Catarino na Ladeira da Barra, onde alguns Velejadores Ingleses davam fuga a muitos escravos fugidos para outros lugares já decretados a Alforria e Liberdade a estes.

  4. Patty Angel disse:

    Amigo Olympio Augusto Ribeiro, fiquei confusa com o seu exposto… Primeiro porque não consegui conceber a necessidade da fundação de qualquer que seja a construção ser OCA… Segundo porque fiquei imaginando onde eles colocariam todos aqueles escravos que seriam vendidos… Terceiro que nenhuma masmorra ou senzala precisa ser “habitável” pra ser usada como masmorra… E quarto que a inundação das “fundações” do Mercado Modelo, até onde eu sei, é posterior à Abolição… Fiquei deveras confusa agora… o.O

  5. Olá amiga ‘Patty Angel’! Vão algumas respostas:
    1- fundação “OCA”: Era muito comum na arquitetura (desde sempre) se utilizar a construção em nível elevado em relação ao acesso da rua – por várias razões. A mais comum era para “arejar” os assoalhos, visto que os pisos eram (naquela época) usualmente com barrotes e pisos de madeira, portanto era necessário afastá-lo do solo para evitar o apodrecimento, infestações de cupins e etc, favorecidos pela presença de umidade. Isso era tão comum que, em algumas cidades, fazia parte do ‘código de obras’ da época (século 19 e início do século 20) a obrigatoriedade de se afastar o piso do pavimento principal, criando-se porões.
    No caso da antiga Alfândega, quando foi construída em 1860, ela foi erguida sobre o mar. Consegue imaginar uma fundação maciça, de alvenaria mista de tijolos e pedras, unidos com cal, sendo construída naquela época – quando nem havia sido inventado o cimento? Por isso ela foi construída com pilares e abóbadas.
    Veja fotos da época: http://www.bahia-turismo.com/salvador/antiga/panorama-mulock.htm
    2- Infelizmente não tenho a resposta precisa sobre onde eram vendidos os escravos. Imagino que eram vendidos na rampa do mercado (que existe até hoje e sempre foi o ponto de recepção de “mercadorias”, desde a fundação da cidade). Imagino que os escravos eram recebidos na área interna na alfândega e expostos na região do entorno, talvez até no pátio que existia atrás da construção, onde hoje é a praça Cayru.
    3- Masmorra é diferente de senzala. Masmorra era para punição e senzala era para habitação dos escravos. “Habitável” é um termo utilizado na arquitetura para designar os elementos mínimos necessários para a permanência de humanos, sem que isso comprometa (muito) a sua saúde. No caso do “depósito” de “mercadorias” – os escravos – provavelmente não cumpriam necessariamente esse requisitos, visto que era para uma permanência de poucos dias, mas com certeza não era inundável, pois que razão teriam os traficantes de escravos – depois de atravessar o oceano com suas “mercadorias”, sendo que vários morriam no percurso – para ao chegar aqui, ainda submetê-los a mais essa ‘tortura’ correndo o risco de perder mais alguns escravos e mais dinheiro?
    4- Como falei acima, o prédio foi construído em 1860 (18 anos antes da abolição), em área que só no início do século 20 sofreu aterramento em volta.
    É isso! Espero que tenha te ajudado a esclarecer!
    Abraços!

  6. Pingback: Maria Graham: testemunha da Independência do Brasil |

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